Para Lá da Kapa

quinta-feira, 19 de março de 2020

𝗖𝗼𝗿𝗼𝗻𝗮𝘃𝗶𝗿𝘂𝘀 | 𝗖𝗮𝘀𝗼 𝗱𝗲 𝗘𝘀𝘁𝘂𝗱𝗼 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 𝗮 𝗡𝗼𝘃𝗮 𝗣𝗮𝗻𝗱𝗲𝗺𝗶𝗮

A Covid-19 é uma doença infeciosa causada pelo vírus SARS-CoV-2 (Síndrome Respiratória Aguda Grave – Coronavírus 2) e reacendeu um revés que a nossa sociedade não tinha desde a gripe espanhola de 1918. Pode ser uma memória distante, mas a gripe espanhola vitimou 50 milhões de pessoas, o equivalente a 200 milhões hoje e três vezes o número de soldados que morreu durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial (1). Neste ensaio, pretendo refletir sobre as características que levaram a que o SARS-CoV2 tenha sido considerado uma “Emergência Global de Saúde Pública” pela OMS e o que está atualmente a ser feito para detê-lo. A possibilidade do vírus se tornar uma calamidade tão letal quanto a gripe espanhola ainda está de pé.

O novo coronavírus, CDC

Primeiro, é crucial entender quais as características de SARS-CoV-2 o tornam tão dramático. O vírus pertence ao género Coronavírus, que inclui membros que infetam regularmente os seres humanos, como algumas constipações (cerca de 10-15%, 2) e vírus notavelmente perigosos, como SARS e MERS, capazes de matar 10% e 35% das suas vítimas, respetivamente (3). No entanto, o vírus da Covid-19 possui atributos que o diferenciam de todos os outros membros. Por um lado, é menos contagioso do que as constipações, embora muito mais perigoso. Por outro lado, não é tão mortal quanto o SARS e o MERS, mas uma pessoa pode transmiti-lo com ausência ou leve sintomatologia, algo bastante incomum para os outros dois vírus. Esta última característica foi uma ferramenta crucial na contenção nas epidemias de SARS e MERS, uma vez que o pessoal médico podia isolar os doentes quando começavam a exibir sintomas, que coincidia com a altura em que ficavam contagiosos. 

Na situação do novo coronavírus, os sintomas são facilmente confundidos com viroses pouco severas e, assim, podem passar desapercebidos na população até haver um número elevado de casos, como aconteceu em Itália e em diversas outras regiões. Citando o conceituado imunologista Anthony Fauci, “em infeções, particularmente infeções respiratórias, quão mais eficiente for um vírus a propagar-se, menor número de casos fatais terá. É por isso que o surto da gripe H1N1, em 2009, não foi considerado uma pandemia particularmente grave. O vírus espalhou-se muito, muito bem, mas a sua taxa de mortalidade foi bastante reduzida." Nesta entrevista, Fauci alertou que havia exceções à regra, como a já referida gripe espanhola de 1918, que era consideravelmente contagiosa e fatal. Cem anos depois, deparamo-nos com outra exceção. Contudo, estes dados não são um indício que SARS-CoV-2 seguirá as pegadas da gripe espanhola, uma vez que o mundo avançou, não está assolado pelas condições deploráveis da Grande Guerra e possui meios mais eficientes para lidar e conter pandemias.

Evitar contrair Covid-19, CDC
Relativamente às rotas de transmissão de SARS-CoV-2, ainda não são totalmente conhecidas. Acredita-se que as pessoas infetadas espalhem a doença principalmente por gotículas de saliva enquanto espirram, tossem e falam e por fómites (qualquer objeto capaz de transferir o vírus de um doente para um novo hospedeiro). Como mencionado, a reduzida sintomatologia de algumas pessoas predispõe-nas a transmitir a doença sem se aperceberem que têm Covid-19, além de que diversos estudos indicam que o vírus é capaz de sobreviver em superfícies por vários dias (mais de 3 dias em plástico/aço inoxidável, até 4 horas em cobre e 24 horas em cartão) e em aerossol por até 3 horas (4). Outras formas de transmissão, apesar de menos comuns, podem ser por contato com sangue, matéria fecal e urina contaminados (5). 

Sucintamente, a progressão da Covid-19 varia desde a ausência ou surgimento de sintomas inespecíficos (como febre, fadiga e tosse seca) até condições potencialmente fatais, como pneumonia grave, síndrome do desconforto respiratório agudo, sepses e falência de vários órgãos (6). A Covid-19 é especialmente grave para idosos e indivíduos com diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão ou cancro (7 & 8). Os homens são mais suscetíveis à doença, provavelmente por as mulheres terem um sistema imune mais robusto (9, 10, 11 & 12).

Informações recentes da OMS sugerem que a 'taxa bruta de mortalidade' do Covid-19 é de cerca de 3 a 4%, dependendo da qualidade do sistema de saúde, da idade média da população, entre outras variáveis ​​(7). É de salientar o quão cautelosa a OMS aplica o termo 'bruto', pois dados recentes indicam que a taxa de mortalidade pode ser muito inferior à atualmente estimada e há duas razões principais para o efeito (13 & 14). Primeiro, reconhece-se que algumas pessoas não desenvolvem sintomas severos de Covid-19. Consequentemente, muitos casos leves podem não ser numerados. A título de exemplo, um estudo chinês mostrou cicatrizes nos pulmões de um paciente contagioso com o novo coronavírus, embora ele não apresentasse sintomas. O diagnóstico foi confirmado: pneumonia assintomática por Covid-19 (15 & 16). Um outro exemplo é um homem de 27 anos do cruzeiro japonês. Foi confirmado que ele estava infetado com Covid-19 e que havia apresentado sintomas gripais por quatro dias; no entanto, o estudo concluiu que ele permaneceu contagioso por mais de duas semanas (17). Estudos posteriores são necessários para corroborar e determinar a ocorrência de tais situações, contudo, fica demonstrado uma das características que podem estar a dificultar a contenção da pandemia.

Sars-CoV-2, Public Domain

Dadas as informações e os casos discutidos, a eficácia das quarentenas implementadas por vários países pode ser questionada. A China foi certamente bem-sucedida com o isolamento, mas deve enfatizar-se que os chineses estão mais acostumados a seguir os cuidados para impedir a propagação de vírus e, mesmo assim, interromperam a sua economia para conter o SARS-CoV-2. A NASA informou recentemente que as emissões de gases venenosos para o meio ambiente haviam diminuído drasticamente na China devido à quarentena do país (18, e, há poucos dias, em Itália). O esforço do povo chinês parece ter sido gratificante, porém, o enigma permanece: terá sido suficiente para impedir que o vírus os ameace novamente? 

Devemos considerar profundamente a questão anterior antes de ponderar suspender por completo a economia da Europa, uma vez que uma nação falida é imensamente mais débil a enfrentar uma pandemia. É certo que o governo português já mediou tais consequências e procurou o melhor equilíbrio entre conter a doença e manter minimamente a sustentabilidade do país, como enunciou o estimado Presidente Marcelo Rebelo de Sousa: "Só se salvam vidas e saúde se, entretanto, a economia não morrer”.

Perguntas e respostas ao Coronavirus, Pixabay

Para responder ao dilema corrente e tendo em conta que as previsões mais otimistas para a obtenção de uma vacina predizem pelo menos um ano de distância, os cientistas também devem determinar se os pacientes que superaram a Covid-19 são imunes a reinfeções pelo vírus. Caso se confirme, a abordagem do Reino Unido de imunizar naturalmente a população pode ser uma solução realista. Claro que, para tal fim, as pessoas incluídas nos grupos de maior risco devem evitar a exposição, como o governo inglês tem sugerido e implementado.

Por fim, estudos futuros devem ainda concentrar-se em várias incertezas sobre o Covid-19, especialmente se é possível e plausível contê-lo a longo prazo, clarificar a taxa de mortalidade média e definir tratamentos medicamentosos para superar os piores sintomas do vírus (já há alguns em fase experimental).

Referências

1 — Patterson, K.D. & Pyle, G. F. (1991). The geography and mortality of the 1918 influenza pandemic. Bulletin of the History of Medicine, 65(1): 4–21.
2 — Heikkinen, T. (2003). The common cold. The Lancet Infectious Diseases, 361(9351): 51-9.
3 — Cascella, M., Rajnik, M., Cuomo, A., et al. (2020). Features, Evaluation and Treatment Coronavirus (COVID-19). Treasure Island (FL): StatPearls Publishing. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK554776/
4 — van Doremalen, N., Bushmaker, T., Morris, D., Holbrook, M., Gamble, A., Williamson, B., Tamin, A., Harcourt, J., Thornburg, N., Gerber, S., Lloyd-Smith, J., de Wit, E. & Munster, V. (2020). Aerosol and surface stability of HCoV-19 (SARS-CoV-2) compared to SARS-CoV-1. Available from: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.03.09.20033217v2.full.pdf+html
5 — Cai, J., Sun, W., Huang, J., Gamber, M., Wu, J. & He, G. (2020). Indirect virus transmission in cluster of COVID-19 cases, Wenzhou, China, 2020. Emerging Infectious Diseases, 26(6).
6 — Serviço Nacional de Saúde (2020). Quais são os sinais e sintomas? SNS 24. Available from: https://www.sns24.gov.pt/tema/doencas-infecciosas/covid-19/
7 — World Health Organization (2020). Coronavirus disease 2019 (COVID-19). Situation Report – 46. Available from: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200306-sitrep-46-covid-19.pdf?sfvrsn=96b04adf_2
8 — WorldOMeter (2020). Age, Sex, Existing Conditions of COVID-19 Cases and Deaths. Available from: https://www.worldometers.info/coronavirus/coronavirus-age-sex-demographics/
9 — Karnam, G., Rygiel, T.P., Raaben, M., Grinwis, G.C.M., Coenjaerts, F.E., Ressing, M.E., et al. (2012). CD200 Receptor Controls Sex-Specific TLR7 Responses to Viral Infection. PLOS Pathogens, 8(5): e1002710.
10 — Peretz, J., Pekosz, A., Lane, A.P. & Klevin, S.L. (2016). Estrogenic compounds reduce influenza A virus replication in primary human nasal epithelial cells derived from female, but not male, donors. American Journal of Physiology, 310(5).
11 — Taneja V. (2018). Sex Hormones Determine Immune Response. Frontiers in immunology, 9: 1931.
12 — Frodsham, G. (2011). 'Man flu' - do women just have stronger immune systems? BioNews. Available from: https://www.bionews.org.uk/page_93215
13 — Wilson, N., Kvalsvig, A., Barnard, L.T. & Baker, M.G. (2020). Case-fatality estimates for COVID-19 calculated by using a lag time for fatality. Emerging Infectious Diseases, 26(6).
14 — Kelland, Kate. (2020). Why COVID-19 'Death Rates' Are Not What They Seem. U.S. News. Available from: https://www.usnews.com/news/world/articles/2020-03-12/why-covid-19-death-rates-are-not-what-they-seem
15 — Lin, C., Ding, Y., Xie, B., et al. (2020). Asymptomatic novel coronavirus pneumonia patient outside Wuhan: The value of CT images in the course of the disease. Clinical Imaging, 63: 7–9.
16 — Shi, H. & Zheng, C. (2020). Radiological findings from 81 patients with COVID-19 pneumonia in Wuhan, China: a descriptive study. The Lancet Infectious Diseases. Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1473309920300864?via%3Dihub#!
17 — Arashiro, T., Furukawa, K. & Nakamura, A. (2020). COVID-19 in 2 persons with mild upper respiratory tract symptoms on a cruise ship, Japan. Emerging Infectious Diseases, 26(6).
18 — NASA. (2020). Airborne Nitrogen Dioxide Plummets Over China. Earth Observatory: NASA. Available from: https://www.earthobservatory.nasa.gov/images/146362/airborne-nitrogen-dioxide-plummets-over-china


terça-feira, 25 de junho de 2019

Godzilla 2 — O Rei dos Monstros | Análise do filme


Godzilla 2
Título: Godzilla 2: O Rei dos Monstros (King of The Monsters)
Realizador: Michael Dougherty
Argumentista: Max Borenstein & Zach Shields & Michael Dougherty
Estreia: 30 de maio de 2019
Idade que Recomendo: +10 (maturidade da ficção)
Género: Drama & Thriller & Ficção Científica & Ação
Duração: 132 minutos

Se, por um lado, Godzilla II encanta os seus fãs com os novos monstros que apresenta, por outro lado, peca pela falta de coesão do guião. É, de grosso modo, um filme pobre.


De facto, Godzilla II: O Rei dos Monstros é o filme ideal se procuras um mundo dominado por monstros, de guerrilhas e de devastação. Os efeitos especiais estão suficientemente bem desenvolvidos para cativar, e a história é o suficiente para conseguir apreciar a disputa entre o Godzilla e os outros titãs/kaiju (ainda que careça de informações pertinentes, como de “onde” veio o monstro alienígena, ou como é que a sua força e poderes são tão igualáveis e equiparáveis ao dos de Godzilla, sendo este da Terra).

O Rei dos Monstros
O oponente lendário e extraterrestre de Godzilla

Não obstante o referido, a maior fragilidade do filme é o guião referente aos humanos, que carece de coerência e de autenticidade. Não só se pode predizer no início o percurso e o evoluir trivial das personagens, como também as suas mortes e sacrifícios são mecânicos e pouco significativos (excetuando, talvez, a personagem Dr. Ishiro Serizawa, que, ainda que não acrescente nada ao Godzilla original, mantém a sua essência).

Por outras palavras, esperava-se mais do que um pai que faz tudo para salvar a filha e de uma mãe que erra por ser ‘uma vilã pouco convincente’ para acompanhar o Godzilla. A própria mensagem que tentam transmitir — a de a Terra estar a sofrer de sobre-população, poluição e extinção em massa — parece desnuda e é apresentada como suficiente para fazer brilhar o filme. Infelizmente, este conceito já foi abordado centenas de vezes e não consolida minimamente o guião. Além disso, diversos pormenores, desde os cientistas até ao referido “comércio de órgãos de monstros” parece referenciar a “Batalha do Pacífico”, habilitando-se a ser acusado de plágio. Não digo que sejam pormenores dispensáveis ou banais, mas antes que devem ser contextualizados de forma a não coincidir com mundos previamente estreados.

Godzilla
O lazer radioativo destrutivo de Godzilla

Em relação ao elenco, não tenho nada nem ninguém a salientar. Foi somente satisfatório, provavelmente consequência do guião infeliz.

Em contrapartida, os cenários e o nascimento/despertar dos monstros são apreciáveis, restando o próximo filme, "Godzilla VS Kong" (2020), para definir se Godzilla está, de facto, sob as mãos de guionistas pouco habilidosos.

Sinopse | CONHECE O FILME EMOTIVO DO MOMENTO

A agência cripto-zoológica Monarch é colocada diante de um novo grupo de monstros onde o poderoso Godzilla colide com Mothra, Rodan, e a sua derradeira némesis, o monstro de três cabeças, King Ghidorah.

Quando estas antigas super-espécies, que se pensava serem meros mitos, surgem à face da Terra para uma devastadora luta pela supremacia, é a existência da humanidade que fica presa por um fio e tragicamente ligada ao destino de um destes gigantes.

Trailer | EMOCIONA-TE COM UM ATO DE FÉ




Avalio — 64 em 100

  • Originalidade (clichês...):
    • Conceitos originais (até 0,25) — 0,15
    • Aproveitamento dos conceitos originais (0,25) — 0,05 (nunca superior à alínea anterior)
  • Porque sim (o que penso que merece, até 0,5) — 0,30
  • Cenários (até 0,25) — 0,25
  • Elenco:
    • Genuinidade/Naturalidade/Destreza (até 0,50) — 0,25
    • Empatia (até 0,25) — 0,10
    • Inédito/Impacto (0,25) — 0,10
  • Técnica (duração & outras qualidades, até 0,25) — 0,20
  • Guião:
    • Coesão/Lógica (até 0,5) — 0,25
    • Fresco/Acrescenta (até 0,25) — 0,05
    • Cativante (até 0,25) — 0,15
  • Efeitos, adereços... (até 0,25) — 0,20
  • Banda sonora (até 0,25) — 0,20
  • Fiel ao tema (até 0,25) — 0,25
  • É um filme:
    • Consegue ver-se (0 ou 0,25) — 0,25
    • É mesmo um filme (0 ou 0,25) — 0,25 (dependente da alínea anterior)
  • Exigência (filme de grande produtora, expectativas iniciais..., até 0,25) — 0,20

TOTAL — 3,20 em 5,00 = 64%

VÊ TAMBÉM


Rampage: Fora de Controlo | Opinião do filme

Rampage: Fora de Controlo | Opinião do filme



Mundo Jurássico: Reino Caído | Crítica

Mundo Jurássico: Reino Caído | Crítica


terça-feira, 7 de maio de 2019

Um Ato de Fé | Análise do Filme


Título: Um Ato de Fé (Breakthrough )
Realizador: Roxann Dawson
Argumentista: Grant Nieporte
Estreia: 7 de maio de 2019
Idade que Recomendo: +8
Género: Drama & Biográfico
Duração: 116 minutos

Muito além duma vivência biográfica e religiosa, "Um Ato de Fé" é comovente, enternecedor e autêntico.


Quem só viu o trailer pode pensar — «"Um Ato de Fé" é baseado numa história verídica em que acontece um conjunto de milagres justificados pela crença religiosa». Apesar desta premissa ser verdadeira, é fundamental salientar que não é preciso ser religioso ou sentimental para ser comovido por "Um Ato de Fé". Houve um gradiente emocional praticamente durante toda a segunda metade do filme, que proporcionou narizes fungosos e olhos lacrimosos a diversos espectadores na sala de cinema, incluindo pessoas com 'coração de pedra'.

O guião é extremamente simples, começando com o comportamento de um adolescente normal, apresentando as suas aspirações, alegrias e preocupações... estou certo de que muitos pais e filhos se devem ter identificado nesta cena inicial.
De seguida, vem o terrível acontecimento, percursor da emoção e dos milagres que se sucedem, que coloca à prova a força incondicional de uma mãe (Joyce). A meu ver, uma das grandes qualidades do filme é o percurso das personagens. De uma forma ou doutra, todas elas cresceram durante esta vivência intensa, algo admirável de transpor da realidade para o cinema.

Breakthrough

Com uma ou outra exceção, o elenco esteve bastante bem, principalmente Chrissy Metz, que interpretou Joyce. Metz representou formidavelmente bem, tal como o ator Marcel Ruiz, que representou o seu filho. Ruiz conseguiu retratar a vida sensível de um adolescente e como um evento deste calibre pode mudar a nossa perceção do que é importante. Sendo totalmente esperado, o final não deixou de ser tocante pela prestação destes dois grandes atores.

É claro que este não é um filme cinco estrelas, contudo, há que valorizá-lo por não cair em exageros, como muitos outros títulos que abordam religião, a adoção e a perda. "Um Ato de Fé" explora todos estes temas e ainda outros tantos na dose certa.

Só para terminar, disseram-me, há poucos dias: "Se queres um filme para chorar, vai ver "Vingadores: Endgame". Eu discordo (mesmo) e antes afirmo: "Se queres um filme que mexa contigo, tens de conhecer 'Um Ato de Fé'".

Sinopse | CONHECE O FILME EMOTIVO DO MOMENTO

“Um Ato de Fé” baseia-se na história real do amor inabalável duma mãe confrontada com probabilidades impossíveis. Quando o filho adotivo de Joyce Smith, John, cai num lago gelado do Missouri, toda a esperança parece perdida. Mas, enquanto John permanece no hospital num coma profundo, Joyce recusa-se a desistir.

Trailer | EMOCIONA-TE COM UM ATO DE FÉ




Avalio — 88 em 100

  • Originalidade (clichês...):
    • Conceitos originais (até 0,25) — 0,15
    • Aproveitamento dos conceitos originais (0,25) — 0,15 (nunca superior à alínea anterior)
  • Porque sim (o que penso que merece, até 0,5) — 0,45
  • Cenários (até 0,25) — 0,2
  • Elenco:
    • Genuinidade/Naturalidade/Destreza (até 0,50) — 0,45
    • Empatia (até 0,25) — 0,25
    • Inédito/Impacto (0,25) —  0,20
  • Técnica (duração & outras qualidades, até 0,25) — 0,20
  • Guião:
    • Coesão/Lógica (até 0,5) — 0,45
    • Fresco/Acrescenta (até 0,25) — 0,20
    • Cativante (até 0,25) — 0,20
  • Efeitos, adereços... (até 0,25) — 0,25
  • Banda sonora (até 0,25) — 0,25
  • Fiel ao tema (até 0,25) — 0,25
  • É um filme:
    • Consegue ver-se (0 ou 0,25) — 0,25
    • É mesmo um filme (0 ou 0,25) — 0,25 (dependente da alínea anterior)
  • Exigência (filme de grande produtora..., até 0,25) — 0,25

TOTAL — 4,40 em 5,00 = 88%

VÊ TAMBÉM

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Seduz-me Se És Capaz | Análise da Comédia

Long Shot
Título: Seduz-me Se És Capaz (Long Shot)
Realizador: Jonathan Levine
Estreia: 1 de miaio de 2019
Idade que Recomendo: +14 (maturidade)
Género: Comédia, drama & romance
Duração: 125 minutos

Provavelmente um dos filmes mais robustos desta temporada de cinema, "Seduz-me Se És Capaz" cativa com um humor sincero e real.


De momento, temos uma panóplia de filmes extremamente populares no cinema, desde "Shazam" e "Capitão Marvel" a "Hellboy" e ao invicto "Vingadores: Endgame". Sem me querer demorar neste tema, penso que todos estes títulos carecem de algo fundamental, um guião sólido (excetuando, talvez, "Shazam", embora peque noutros aspetos). Pelo contrário, "Seduz-me Se És Capaz" é uma comédia de menor dimensão e mais humilde. Pretende apresentar algo mais genuíno, ao invés de um blockbuster nitidamente concentrado em 'subir as audiências e fazer dinheiro'. 

Os lemas do filme, ainda que, como já referi, sejam modestos, são habilmente transmitidos ao espectador, desde ao "amar despretensiosamente" até à realidade de todos termos a nossa individualidade e intimidade, incluindo os indivíduos mais célebres e atarefados. O conceito da igualdade de género também é abordado, quase sem a redução ao ridículo/cena forçada típica dos filmes que pretendem passar esta mensagem (como a cena feminista de "Vingadores: Endgame" que, ainda que deslumbrante, parece demasiado forçada).

Seduz-me Se És Capaz

Os cenários, ainda que relativamente simples — como o interior de um avião, o evento da aurora boreal e a magnificência de uma mansão — estão bem enquadrados e ficam na memória. "Seduz-me Se És Capaz" não está carregado de piadas ou trocadilhos humorísticos, mas antes de um bom humor contagiante e cativante, capaz de entreter à meia-noite e mesmo com a sua longa duração (2 horas).

Ressalta dizer que esta comédia não é de todo uma obra-prima. O final, por exemplo, foi apressado e encerado de forma a terminar como qualquer filme 'que se preze e queira ser prezado' — E Viveram Felizes Para Sempre.... Também houve alguns aspetos dispensáveis, como a crítica subjacente na personagem do presidente dos EUA, talvez demasiado disparatada (embora a mensagem também seja habilmente transmitida).

Seduz-me Se És Capaz

Por fim, falta falar do elenco. Os dois protagonistas são interpretados por Charlize Theron (de "A Branca de Neve e o Caçador", "Atomic Blonde - Agente Especial" e "Mad Max: Estrada da Fúria") e Seth Rogen (de "Má Vizinhança"). Embora as mais recentes comédias de Seth não tenham sido nada de especial, este conseguiu a parceira ideal, Charlize, que emparelha e adoça o seu humor mordaz. Esta dupla propõe uma história honesta, pelo menos até perto do final, aliada a uma boa dose de ação, de gargalhadas e de espontaneidade. Devido à intimidade apresentada, não é um filme indicado para crianças.

Sinopse | CONHECE SEDUZ-ME SE ÉS CAPAZ

Fred Flarsky é um jornalista que, devido à sua escrita (excessivamente) arrebatada, está novamente desempregado. Um dia, por casualidade, encontra Charlotte Field, que em tempos foi sua "babysitter" mas que hoje se transformou numa das mais influentes mulheres do mundo. De secretária de Estado, ela concorre agora à presidência dos EUA. Contente por voltar a vê-lo, Charlotte contrata Fred, que a conhece há várias décadas, para escrever os seus discursos e para os transformar em algo menos solene do que o habitual. Contudo, o que parecia ser uma parceria estritamente profissional depressa vai dar lugar a algo mais…

Trailer | ENTRA NA COMÉDIA DO MOMENTO


Avalio — 84 em 100

  • Originalidade (clichês...):
    • Conceitos originais (0,25) — 0,15
    • Aproveitamento dos conceitos originais (0,25) — 0,15 (nunca superior à alínea anterior)
  • Porque sim (o que penso que merece, 0,5) — 0,4
  • Cenários (0,25) — 0,25
  • Elenco:
    • Genuinidade/Naturalidade/Destreza (0,50) — 0,4
    • Empatia (0,25) — 0,25 
    • Inédito/Impacto (0,25) —  0,2
  • Técnica (duração & outras qualidades, 0,25) — 0,25
  • Guião:
    • Coesão/Lógica (0,5) — 0,35
    • Fresco/Acrescenta (0,25) — 0,2
    • Cativante (0,25) — 0,25
  • Efeitos, adereços... (0,25) — 0,2
  • Banda sonora (0,25) — 0,2
  • Fiel ao tema (0,25) —0,25
  • É um filme:
    • Consegue ver-se (0 ou 0,25) — 0,25
    • É mesmo um filme (0 ou 0,25) — 0,25
  • Exigência (filme de grande produtora..., 0,25) — 0,2

TOTAL — 4,20 em 5,00 = 84%


VÊ TAMBÉM


Johnny English Volta a Atacar | Crítica à comédia

Johnny English Volta a Atacar | Crítica à comédia



O Espião Que Me Tramou | Análise do filme

O Espião Que Me Tramou | Análise do filme


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Glass | Análise do thriller


Glass | crítica
Título: Glass
Realizador: M. Night Shyamalan
Estreia: 17 de janeiro de 2019
Idade que Recomendo: +14 (maturidade, cenas sangrentas)
Género: Ação, Mistério Psicológico, Drama
Duração: 129 minutos

"Glass" é a compilação muito esperada dos filmes "O Protegido" e "Fragmentado". Embora não seja tão consistente como os anteriores, tem um final a destacar.


Para mim, "Glass" está num impasse. Se, por um lado adorei, a história assente na banda-desenhada, recheada de raciocínios invulgares e fascinantes; por outro lado, senti uma lacuna no caráter das personagens (excetuando a do Mr. Glass e a da Dr. Ellie).

"Glass" apresenta um elenco arrebatador, protagonizado por Bruce Willis (David Dunn), James Mcavoy (Kevin e restantes 22 personalidades), Samuel L. Jackson (Mr. Glass) e Sarah Paulson (Dr. Ellie). Houve, contudo, momentos de fraqueza em que os movimentos não foram tão fluídos quanto deviam. 

Em parte, penso que tal se deve à vontade de salientar a genialidade do Mr. Glass. Conseguiram fazê-lo, mas não sem reduzir a perspicácia de David e a magnificência de Kevin. Deste modo, o guião fez jus ao filme "O Protegido", continuando a sucessão de pensamentos e crenças do Mr. Glass e do David. Porém, degrada a visão distorcida e macabra apreciada em "Fragmentado", rebaixando a mente complexa que era Kevin e as suas 22 personalidades.

Glass | Análise do thriller


Em contrapartida, é de apreciar a humanidade das personagens, tendo todas elas limitações. Onde há uma qualidade arrebatadora, existe um defeito igualmente grande a balanceá-la. A saga "Divergente" dá bons exemplos disso — na medida em que uma pessoa muito altruísta não deve pensar o suficiente em si. 
Cada um destes 3 protagonistas tem alguém que ama, algo típico das BD's e otimamente utilizado no filme, conquistando desde início a compaixão do espectador. O final não teria o mesmo impacto sem eles. E, já que abordamos o final, adianto (sem spoilers) que este foge à regra dos típicos filmes de super-heróis e, só por isto, já dou uma salva de palmas ao realizador. O desfecho não é fantástico, mas cumpre o que promete — ser Anti-MCU (Anti - Universo Cinematográfico Marvel)

"Glass" é a aventura de super-heróis ideal para quem procura uma história cognitiva e com algum caráter.


Sinopse | CONHECE ESTE UNVIERSO ANTI-MCU

O segurança David Dunn é um homem anónimo até ao dia em que se torna o único sobrevivente de um devastador acidente ferroviário. Não percebe porque é que todos os passageiros morreram e ele não sofreu qualquer ferimento. Um desconhecido, que sofre de uma doença de ossos e que é fanático por livros de banda desenhada, começa a persegui-lo. Chama-se Elijah Price e tem uma teoria sobre o sucedido. Em contraponto a estas duas personagens existe Kevin, que sofre de um grave transtorno dissociativo de identidade e que possui dentro de si mais de duas dezenas de personalidades distintas. Quando a Dr.ª Ellie Staple, uma psiquiatra especializada em tratamentos de megalomania, os reúne para estudo, dá início a um perigoso jogo de manipulação em que cada um deles assume um papel inesperado.

Trailer | PREPARA-TE PARA O RACIOCÍNIO BRILHANTE DE MR. GLASS 


Avalio — 3,9/5,0 estrelas


VÊ TAMBÉM

 
Venom | Análise do filme Marvel

Venom | Análise do filme Marvel


Sete Estranhos no El Royal | Análise de cinema



Genoma — Tamanho VS Número de Genes

Sendo o ser humano uma espécie evoluída, seria de esperar que detivesse pouco DNA não-codificante (comummente designado DNA lixo, que não codifica proteínas).

Curiosamente, verifica-se exatamente o oposto, tendo os seres procariotas a menor percentagem de DNA não-codificante e o ser humano uma das maiores (cerca de 98,8% do nosso genoma é DNA não-codificante!). Há várias teorias a serem propostas para justificar a elevada prevalência deste DNA, como sendo essencial para a integridade da molécula e para a síntese de siRNA (RNA não-codificante envolvido no controlo da expressão génica).

Retirado de https://sandwalk.blogspot.com/

A partir desta imagem, contraria-se o conceito de que quanto mais complexa a espécie, de mais genes ela precisa, mas antes que quanto mais complexo for melhor tem de gerir o seu genoma. Como já referi, algum DNA não codificante tem funções, embora a maioria seja simplesmente um ‘fóssil’. A título de exemplo, uma parte considerável do nosso DNA vêm de vírus, especialmente de retrovírus (como o HIV), e estima-se que componha 5 a 8% do nosso genoma (1).
Nas células procariotas, o genoma não-codificante detém uma baixa percentagem, que aumenta com os eucariotas, consoante o seu nível de complexidade. Assim, a proporção de DNA lixo pode ser utilizada como um meio para avaliar a complexidade duma espécie.

Tamanho do Genoma traduzirá a complexidade de um organismo?


O genoma é a quantidade total de DNA total de uma célula, incluindo os seus genes. O Homo sapiens tem um genoma de 3200 Mb (mega pares de bases = 106). Temos um genoma muito maior que a mosca-da-fruta (180 Mb), mas pouco maior que o rato (2900 Mb) e menor que o arroz (5000 Mb). Ao contrário da proporção de DNA não-codificante, o tamanho do genoma não é diretamente proporcional à complexidade do organismo. De facto, o maior genoma conhecido pertence à Ameba (670000 Mb), um organismos unicelular (2).

Tamanho do genoma

Sequências de DNA Não-Codificante


Para concluir o artigo, irei retomar e concluir o tema das sequências de DNA não-codificante. Como já referi, estas podem resultar em RNA não-codificante (siRNA), regular a molécula de DNA ou apenas constituir zonas de DNA repetitivo. Estas zonas de DNA podem encontrar-se em 2 sítios no DNA:

  • Na região intergénica, ou seja, entre genes;
  • Na região intragénica, isto é, dentro do próprio gene. São comummente designados de intrões, não tendo nenhuma função significativa oficial (embora haja teorias e estudos que revelam que os intrões são essenciais para uma expressão génica eficiente e ainda na composição de RNA não-codificante, 3).

(1) - Belshaw, R., Pereira, V., et al. (2004). Long-term reinfection of the human genome by endogenous retroviruses.
(2) - L.W., Parfrey, D.J., Lahr, L.A, Katz (2008). The dynamic nature of eukaryotic genomes.
(3) - Chorev, M., Carmel, L. (2012). The Function of Introns.

Qualquer comentário construtivo é bem-vindo, quer através da secção dos comentários quer através do e-mail paraladakapa@gmail.com.

VÊ TAMBÉM



Imagem retirada de University of York

Alguns Marcos Históricos da Genética


domingo, 27 de janeiro de 2019

PCR — Polymerase Chain Reactione

O PCR (Reação em cadeia da polimerase) permite a replicação dos genes, isto é, a obtenção in vitrio de milhões de cópias idênticas de uma certa região do DNA, a partir de uma região de DNA molde. Para tal, é necessária a utilização da Taq polimerase, uma DNApolimerase termoestável proveniente de uma bactéria termofílica (Thermus aquaticus, que vive a uma temperatura ótima de 70ºC). Esta enzima termoestável é fundamental, uma vez que as DNApolimerases do ser humano não funcionam a altas temperaturas, necessárias para a desnaturação e quebra da dupla hélice de DNA. 
Esta técnica muito útil para análises genética, como na ciência forense. 

O procedimento do PCR baseia-se num ciclo com 3 temperaturas diferentes para separar as cadeias de DNA e duplicar o material genético:

  1. Extrai-se o segmento de DNA da amostra.
  2. Eleva-se a temperatura a 90ºC, para separar completamente a cadeia dupla de DNA em duas cadeias simples;
  3. Reduz-se a temperatura para os 55ºC , de forma a que os primers (fragmentos curtos de DNA sintético) se liguem ao seu DNA complementar (que corresponde à região do DNA-amostra que se pretende replicar.) 
  4. Eleva-se a temperatura até aos 72ºC para que a Taq polimerase comece a adicionar nucleótidos ao fragmento de DNA (primer) pré-existente, até ser restabelecida a cadeia dupla.
Técnica de PCR

Este ciclo (etapa 2, 3 e 4) repete-se 25 a 30 vezes e demora cerca de 2 a 3 horas, dependendo do tamanho do fragmento de DNA a replicar. No final da técnica, têm-se milhões de cópias do fragmento. Na teoria, o DNA aumentaria 225 vezes. Todavia, na prática a amplificação não é tão eficiente, resultando num aumento de 1 milhão de vezes.

Normalmente, o resultado do PCR é confirmado pela eletroforese em gel, onde os fragmentos de DNA irão migrar do pólo negativo para o pólo positivo (uma vez que o DNA é rico em cargas negativas, devido aos grupos fosfato), sendo separados consoante o seu tamanho molecular. Quanto menor for o fragmento, mais célere será a sua migração. Fragmentos de DNA com o mesmo comprimento (por exemplo, 2 fragmentos com 300 pares de bases) migrarão a mesma distância no gel. 

Desta forma, através de um DNA ladder (cujos fragmentos de DNA são de tamanho conhecidoé possível determinar de que tamanho é o fragmento de DNA em estudo. Claro que, sendo o DNA microscópico, apenas a existência de muitos fragmentos idênticos será visível (daí ser necessário o PCR):

Eletroforese em Gel


Para além da eletroforese em gel, o produto de PCR pode ainda ser utilizado para a sequenciação, testes genéticos, diagnósticos, entre outros.

Exercício: Com base no resultado da eletroforese da mãe e do pai, qual destas crianças é o filho do casal?


Exercício de Eletroforese

Para ver a resposta, sublinhar com o rato o espaço seguinte: A criança 1, uma vez que só ela tem as mesmas bandas que o pai e a mãe. As crianças 1 e 3 não são filhas do casal, pois têm bandas que não existem na eletroforese da mãe e do pai.

Qualquer comentário construtivo é bem-vindo, quer através da secção dos comentários quer através do e-mail paraladakapa@gmail.com.

VÊ TAMBÉM


Imagem retirada de University of York

Highlights