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sábado, 28 de abril de 2018

A Maldição da Casa Winchester | Crítica do terror

Título: A Maldição da Casa Winchester
Realizador: Peter Spierig, Michael Spierig
Estreia: 12 de abril de 2018
Trailer & Sinopse: Em anexo
Idade que Recomendamos: +12 anos (sangue e sustos)
Género: 50% suspense, 30% terror e 20% aventura

“A Maldição da Casa Winchester” esconde sustos e uma base verídica bela. A protagonista, firme e poderosa, é uma aquisição soberba. Afinal, conheces a maldição desta família?


Dominado pelo caráter sobrenatural, o filme mantém a sua sobriedade com personagens realistas. No panorama geral, o guião reserva uma história bela, firme e de bons costumes. Se fosses a proprietária da lendária empresa de armas de fogo e todos as vítimas das armas que vendes te perseguissem... o que farias?

"A Maldição da Casa Winchester" arranca com vários caminhos, que resultam numa história invulgar. Tem uma quinzena de sustos.... e eu fui vítima especial de um, liberando um grave e vergonhoso grito. A atriz Helen Mirren representa uma Sarah Winchester muito digna. Embora o guião não siga a história real, acredito ser uma homenagem nobre à família Winchester. Conhece a sua verdadeira história já a seguir!

A Maldicao da Casa Winchester
Um dos espíritos da casa Winchester

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CASA WINCHESTER

Em 1924, Harry Houdini visitou uma desconcertante singularidade arquitetônica no coração do Vale do Silício, na Califórnia. Embora fosse um mágico de profissão, Houdini dedicou-se a desmascarar o que considerava um flagelo de falsos espiritualistas e médium. A enorme propriedade, parcialmente demolida pelo grande terremoto de San Francisco em 1906, tinha a reputação de ser assombrada — e nem o próprio Houdini conseguia abalar a sensação de que algo dentro daquelas paredes estava errado. Assim, Houdini apelidou o prédio de "Winchester Mystery House", em homenagem à falecida Sarah Winchester, a mulher secreta que o construiu e habitou. Desde que o seu arquiteto morreu (1922), houve mais de 12 milhões de visitantes à casa. 

Com este filme repleto de espíritos, talvez se venha a descobrir que Winchester estava longe de ser apenas uma senhora "louca" que construiu uma casa mais que maluca. É certo que a casa é desconcertante. Temos uma escadaria que leva a lugar nenhum, o número 13 estampado nas elaboradas decorações, uma porta do segundo andar que se abre para nada. Todavia, o objeto mais curioso dentro da mansão era, na verdade, Sarah Winchester. 

Tendo perdido primeiro a sua bebê e depois o seu marido, a herdeira viúva de Winchester deixou para trás tudo o que sabia sobre a sociedade da Costa Leste, para viver sozinha em San Jose, Califórnia, na altura uma área muito rural. Sob a influência do que muitos consideravam loucura e a maioria, agora, entenderia como consciência pesada, Sarah Winchester condenou-se a uma vida reclusa, centrada no seu grande projeto: construir uma casa renascentista em plena e constante construção e renovação. Isto durou 38 anos, até à sua morte.

Sinopse | A MALDIÇÃO DA CASA WINCHESTER

Sarah Winchester, a herdeira da fábrica de armas de fogo que leva o seu apelido, está convencida de que é assombrada pelas almas dos que morreram às mãos da espingarda de repetição Winchester.
Após a morte súbita de marido e da filha, dedica-se à construção de uma enorme mansão projetada para manter os espíritos malignos afastados.

O céptico psiquiatra de São Francisco, Eric Price, é enviado à propriedade para avaliar o estado de espírito de Sarah e descobre que a obsessão da mulher pode não ser apenas um assomo de loucura...

Trailer | CONHECE A PECULIARIDADE DA SRA. WINCHESTER


Avaliamos — 4,1/5 estrelas

A Maldicao da Casa Winchester

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domingo, 24 de dezembro de 2017

Conto de Natal

Para partilhar o Natal contigo, aqui está um conto natalício exclusivo do nosso blogue. Espero que gostes e um grande Feliz de Natal 😉

Era um dia como tantos outros quando tudo aconteceu. Ainda tinha os lábios mornos do café escaldado e a sonolência bêbada de quem ficou até tarde a mandriar nas redes sociais. Trazia o telemóvel no bolso e os auscultadores nos ouvidos e foi então que, de repente, reparei no polícia fardado a escoltar a entrada do autocarro que me levaria para o trabalho.

 – Bom dia – cumprimentei o Sr. Gilberto, o pacato motorista da majestosa viatura azul que sempre me recebera com um aceno tão quente como a chávena fervente do café.

 Olhei para o Sr. Gilberto, que me fitou com um olhar irado como o gelado. Senti um aperto no estômago e perguntei-lhe: – Está tudo bem?

"Olhar Irado como o Gelado"

 Enquanto falava, estranhei ver a Clara, uma colega que me costuma acompanhar para o trabalho, a sair apressada do autocarro.

 – Vou chegar atrasada! – corria ela com o telemóvel na mão.

 O Sr. Gilberto permaneceu impassível, enquanto o polícia se aproximava.

 – Onde está? – indagou o agente. Intimidado, tirei o passe de autocarro do bolso e mostreilho. Ele expirou uma lufada de ar vulcânico para a minha nuca, e o pânico apoderou-se de mim. – O Livro, rapaz! Não viste as notícias? Precisas de ter um livro na mão para poderes entrar no autocarro.

 Na altura, duvidei da sua resposta, mas, sendo ele um agente de autoridade, insisti:

 – Por favor, se eu não apanho este autocarro perco o emprego! Deixe-me entrar, e eu prometo que lhe compro um livro. Vá lá! Estamos a uma semana do Natal...

 O polícia deu uma gargalhada e deixou passar uma velha com um livro na carteira.

 – Rapaz, acredita que nunca aspirei passar de polícia a porteiro, mas agora é assim. Trazes um livro na mão ou um atestado médico que te ilibe de tal e podes entrar nos veículos públicos. Se não o fazes, problema teu. Agora, sai! Temos de seguir viagem – exalou.

 Sem tempo a perder, corri para a paragem de táxis. Durante a viagem para o trabalho, o taxista explicou-me que o governo quer estimular a cultura da população e não viu melhor forma para o fazer do que implementar algumas leis estimuladoras da consciência.

 No trabalho, não eram poucos os livros abandonados pelas secretárias. Quis convencer-me de que a lei estava condenada ao fracasso e de que só me tinha feito perder o dinheiro para o almoço. Mal-humorado, pedi ao meu superior para participar na manifestação da próxima tarde, e o homem deu-me licença.

 – Isto é um atentado à sanidade pública! – dizia ele.

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 No dia seguinte, não me esqueci de trazer um livro que tinha por casa. Cumprimentei o Sr. Gilberto, e o maldito nem teve coragem de olhar para mim. O polícia deixou-me passar, e eu fui sentar-me ao lado de uma rapariga com os olhos colados ao telemóvel.

 – Fogo! – indagou ela para o aparelho. Tínhamos acabado de arrancar, quando o telemóvel ficou sem bateria. Ela guardou-o na mochila e pôs-se a olhar pela janela. Lembro-me de ter refletido que os livros, ao menos, não precisam de um carregador para fazerem um ambiente animador.

 Olhei para trás e vi dezenas de pessoas acompanhadas por livros. Poucas os liam, algumas queriam atirá-los pela janela e muitas estavam-lhes gratos por já não precisarem de pagar o passe do autocarro. Nessa mesma tarde, participei numa manifestação que contou com cem mil portugueses. O governo, decidido a contrariar a estagnação do país, manteve escrupulosamente a sua decisão.

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 A dois dias do Natal, entrei com o livro no autocarro. O Sr. Gilberto recebeu-me com um sorriso quente como a chávena fervente do café, satisfeito pelo polícia já não estar a barrar a entrada aos seus clientes.



 Sentei-me num dos assentos livres. No fundo do veículo, um grande grupo de leitores mostrava o sucesso aparente da lei estimuladora da consciência. Eu ainda não estava convencido e acreditei que, agora que o polícia tinha ido embora, as pessoas iriam largar os livros nos cantos escuros da casa de onde os tinham ido encantar.


 Mas isso não aconteceu. Na manhã seguinte, metade do autocarro lia com o coração numa mão e o livro na outra. Batendo o pé, ainda indaguei com alguns colegas que, depois das férias natalícias, tudo voltaria ao normal. Estava indignado pelo modo como as pessoas estavam a submeter-se a esta lei absurda. Mal sabia eu o que estava prestes a vivenciar...

 Nesse dia, véspera de Natal, fui jantar a casa da minha mãe. Foi a primeira vez que o festejámos sem o meu pai. Ele lutou contra o cancro com brava postura. Pela minha mãe e pela memória dele, reuni-me com a minha irmã e preparámos tudo. Ela cozinhou o bacalhau, eu caprichei nos doces e, juntos, tratámos das surpresas.

 A nossa mãe não sorriu com todos os dentes, mas sentiu-se amada por todas as frentes. À meia-noite, trocámos regalos, e a nossa mãe entregou-nos dois embrulhos grandes e pesados. A minha irmã abriu o dela com agrado, enquanto eu rasgava o papel, desconfiado. De repente, a minha mãe levantou-se do sofá.

 – O vosso pai queria dar-vos algo que fizesse parte dele, para vocês o poderem recordar – ela respirou fundo e reteve as lágrimas. Apontou para a prenda desembrulhada da minha irmã, um aglomerado de livros velhos. – Ele escolheu-vos dez livros. Dedicou-te o romance de onde retirou a tua alcunha, minha andorinha – disse, apoiando-se na minha irmã.

 Ela limpou os olhos com a manga do casaco e veio ter comigo.

 – Ele deixou-te dez bocados da sua alma. Uma dezena de obras sem nome e autor. Uma delas foi escrita pelo teu pai... – ela abraçou-me com força, e eu envolvia com carinho. – Ele gostava que tu as lesses, que descobrisses qual é a dele. Eu sei que não gostas de ler e sei qual é, se tu não quiseres...

 – Eu vou lê-las – antecipei-me, beijando-a na testa. Não sei quanto segundos passaram até a minha irmã se juntar a nós e muito menos até quebrarmos o silêncio cheio de saudade e amor.

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 No dia seguinte, levei um dos livros do meu pai para o autocarro. O Sr. Gilberto conduzia com o cachecol que a mulher lhe fizera para o Natal, e a minha colega Clara lacrimejava ao devorar os poemas que o marido lhe dedicara. Eles podiam não ter dinheiro para grandes surpresas, mas têm paixão pelas subtilezas.

 Eu sentei-me ao lado da jovem do telemóvel sem bateria. Desta vez, trazia umas almofadas para aquecer as orelhas e lia um pequeno livro com letra graúda e imagens pretas.

 À minha frente, duas mulheres conversavam, animadas, sobre a nova legislação:

 – Sabias que os supermercados vão passar a fazer promoções exclusivas para quem comprar livros nas suas livrarias? – indagou uma.

 – Só falta oferecem carros a quem folhear uma revista! – brincou a outra. Com um sorriso de orelha a orelha, abstive-me do que me rodeava e abri o livro na primeira página: Para o Luís do pai.

 Aproximadamente um quarto da população utiliza transportes públicos. Por outro lado, 100% da população vai ao supermercado. Uma pedra pode mover montanhas. Uma regra pode gerar façanhas. 


Luís Telles do Amaral


PUBLICAÇÃO SEMELHANTE

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